14 de novembro de 2012

A paz do coração por Bert Hellinger (fundador das Constelações Familiares)

O que significa reconciliação? Significa que dois lados real ou aparentemente contrários se encontram, sem que se anulem reciprocamente. Quando estamos em nosso círculo habitual, em nossa cultura, em nossa família, em nossa religião, em nossa língua, seguindo uma determinada ordem de valores, sentimo-nos seguros. Ao mesmo tempo, somos também limitados. Pois além desse círculo existe um outro círculo, uma outra cultura, existem homens de outra raça, com outra religião, outras obrigações e uma consciência diferente. E os membros desse outro círculo também estão solidários e seguros.
Entretanto,falta a cada grupo algo que o outro tem e pode oferecer-lhe. Cada um deles permanece limitado, sobretudo espiritualmente, porque o acesso a muitas coisas novas está vedado para ele. Se porém, cada um dos grupos se abre ao outro e reconhece que aquilo que lhe parecia talvez ameaçador e diferente é humanamente válido e equivalente ao que ele próprio tem, ambos os grupos podem associar-se sem se misturarem. Ambos subsistem e se enriquecem mutuamente. Assim se consegue a reconciliação.
Isso também pode ser reduzido e aplicado a algo bem simples. Cada pessoa tem algo em si que gostaria de rejeitar, algo que não lhe corresponde totalmente porque se opõe a um certo ideal que ela concebeu. Então sua alma fica inquieta, mantém-se na defensiva e não encontra a paz.
A reconciliação acontece quando interiorizo o que rejeitei e digo sim a isso como ao restante. Quando aceito isso como igualmente válido, sem fazer distinções. Então aquilo que rejeitei enriquece o que tenho. Aquilo que tenho se alarga e encontra paz no que eu rejeitara.

30 de outubro de 2012

Nota sobre a relatividade dos ideais de perfeição

Ideal de Ego é uma estrutura da personalidade que faz o Ego voltar-se para dentro de si, para aquilo que é moral, empático. É uma formação intrapsíquica autônoma que serve de referência ao Ego para apreciar suas realizações e comportamentos e que será a base para a formação de seus valors morais.
Tem origem narcísica, no amor por aquilo que idealiza como perfeito, identifica e introjeta como modelos morais fornecidos pelos pais, avós e principalmente com os ideais coletivos (sociedade, cultura, religião). A censura e seu censor (superego) cobram em função deste ideal narcísico de perfeição, estabelecido como padrão, colocando o sujeito em conflito entre o idealizado no Ideal de Ego e os seus desejos e tendências.
O Ideal de Ego incorpora os padrões narcísicos do Ego Ideal, qualificando o caráter e influenciando a personalidade. Os sentimentos de inferioridade e de inveja surgem na medida em que o indivíduo percebe que outros se enquadram nos seus modelos idealizados (ideal de ego e ego ideal) enquanto ele não se julga capaz. O Ego se submete ao Ideal de Ego para não sofrer a ação da culpa. O Ideal de Ego é formado a partir do alterego, ou seja, dos anti-padrões que a sociedade estabelece como inadequados, aquilo que não se deve fazer para não sofrer constrangimento.
Enquanto o Superego é formado a partir da introjeção dos personagens temidos, o Ideal de Ego seria formado a partir da imagem introjetada dos objetos amados, idealizados como bons e corretos. O Superego corresponde à autoridade (juiz, poder de polícia) e o Ideal de Ego à lei, o padrão sobre o qual ele será cobrado pelo juiz. Quando o Ego se afastar dos padrões do Ideal de Ego, ele sentirá culpa.

20 de outubro de 2012

O Ciúme




O ciúme é uma receita infalível para azedar qualquer relacionamento. Que se trata de insegurança todos sabem. Quando apenas um dos parceiros tem ciúmes, ele pode estar sentindo que o outro “é areia demais para o seu caminhão”, mesmo que não seja, pois trata-se então da famosa baixa auto-estima. A auto-estima é uma construção simbólica que depende não apenas do quanto a pessoa se considera amada e bem sucedida em todos as áreas, como seu grau de exigência em relação ao que considera amor e sucesso. Nosso nível maior ou menor de auto-estima foi definido principalmente na infância, estando geralmente relacionado com o grau de exigência dos pais e do quanto recebemos de amor (ou do quanto fomos reforçados positivamente, como queiram). Muitas vezes o indivíduo, quando cresce e à medida que reconstrói sua identidade, precisa reajustar sua auto-estima para que seus relacionamentos interpessoais fiquem mais harmônicos – casos de filhos superprotegidos que precisam se tornar mais “humildes”, ou de crianças inferiorizadas que precisam se valorizar.

O fato é que o ciumento, não estando bem relacionado com sua auto-estima, pode muitas vezes, e de forma consciente ou não, querer minar o parceiro a fim de que este se torne mais a seu gosto, talvez mais dependente, mais modesto ou menos atraente para o sexo oposto. Isso pode vir sob a alegação de que o parceiro é arrogante ou convencido. É a maneira de muitos ciumentos se tornarem mais seguros. A partir daí surgem as intermináveis agressões causadas pela insegurança.

Embora a pessoa mais insegura da relação possa ser constantemente assegurada e reforçada por um parceiro compreensivo, na maioria das vezes, dependendo do nível de elaboração do problema, isso não será suficiente. Por mais que o parceiro elogie e se submeta ao controle do inseguro, trata-se de algo interno, que só pode ser modificado pelo auto-conhecimento ou “decisão” do próprio indivíduo. É o caso comum, por exemplo, de mulheres que não acreditam ser amadas, ou de homens que precisam controlar ou vigiar os passos das parceiras. O ciúme está estreitamente relacionado ao medo da traição, pois o inseguro sempre sente, inconscientemente, que alguém “mais capaz” do que ele/ela tomará seu parceiro de si. Não raro, de tanto ser pressionado e importunado com as queixas do parceiro, o outro acaba por de fato traí-lo, o que vem a reforçar no ciumento sua crença de que estava sendo enganado, preterido ou de que é inferior, aumentando assim o controle, e tornando o relacionamento, se ainda não era, algo insuportável.

Se os ciúmes de um dos parceiros traz impactos negativos para o relacionamento, não podemos negar que a tragédia aumenta quando existem dois ciumentos. O fato de ambos serem inseguros em geral não ameniza o problema, ao contrário do que se poderia pensar.

Uma outra característica dos ciumentos mais contumazes é a obsessão por descobrir os “podres” do parceiro, e este indivíduo não terá paz enquanto não encontrar alguma coisa. Se encontrar, porém, tornará o relacionamento um inferno. Na falta de grandes deslizes, os pequenos servirão para satisfazer a “profecia auto-realizadora” do ciumento. Cedo ou tarde ele acaba por atrair determinados fatos a fim de que se cumpra a ideia pré-concebida de que está sendo enganado de alguma forma.

E materializar essa ideia não fica barato. O ciumento pode levar a cabo sessões de questionamento e tortura – psicológica e até mesmo física – para extrair a suposta “verdade”, sem a qual ele não sossegará. Aparentemente os mínimos detalhes os deixam satisfeitos por pouco tempo. Mas logo haverá a exigência de mais “verdades” a ponto de a vítima precisar rebuscar na memória algo muito errado que porventura tenha feito. Pois o torturador sempre age como se soubesse de algo, como se tivesse sido testemunha ocular de um fato, mesmo que não tenha ideia do que esteja falando. Ele também pode selecionar detalhes ou considerar “muito estranho” determinados fatos e comportamentos do parceiro para exercer a desconfiança e ter dados “concretos” em que basear a acusação. Seus argumentos não são destituídos de lógica, porém isso serve para que ele mesmo não se considere o problema, e a tendenciosidade de tal lógica nunca é questionada.

Perguntamo-nos então, qual seria a solução para este universo de problemas onde o ciúme impera – além é claro de um longo processo de auto-conhecimento e redenção pelos quais obviamente se deva percorrer. O ciúme é uma atitude egoísta onde o indivíduo não abre mão de possuir como objeto o ser “amado”, do contrário não se importaria tanto com o que ele/ela faz. É possível que na infância ele tenha se frustrado imensamente quando percebeu que um de seus pais não lhe podia dar atenção exclusiva, pois precisava partilhar essa atenção com seus irmãos ou com o mundo. Ele pode ter se sentido enganado ou traído ou ainda é possível que um dos pais o tenham super-protegido ou acalentado a ponto de o ciumento crer que o mundo também teria essa atitude especialista, de alguma forma. Trata-se de uma exigência inconsciente, pois a maioria dos ciumentos se consideram generosos. O grande avanço para esses indivíduos seria compreenderem que podem amar os parceiros apesarde estes serem livres e terem o direito de compartilhar sua atenção com o mundo. E isso não irá destruir ou diminuir o amor que sentem pelo parceiro, muito pelo contrário. É muito mais fácil amar quem não exige este amor.

24 de fevereiro de 2011

PENSAMENTOS



"Existe uma linha tênue entre a hipocrisia e a disposição para se tornar uma pessoa melhor. Quando se faz um esforço em direção a algo que não é algo espontâneo para o indivíduo, ao mesmo tempo em que ele está sendo hipócrita ao geralmente bancar o "bonzinho", também está desejando ser algo melhor do que julga ser, o que é louvável. A passagem de uma atitude para outra é que pode gerar uma contradição entre a tendência natural da pessoa e seu comportamento."

"É impossível dizer a um indivíduo que se mantenha no presente se ele não possui a intensidade necessária para isso. Por intensidade pode-se entender a capacidade de atualizar o próprio inconsciente ou, em outras palavras, o contato que o indivíduo tem com o Self, Eu superior, ou Deus. A intensidade necessária para se permanecer no agora é o resultado de muita prática, e da liberdade de amarras ou travas adquiridas no passado. É possível "sentir" o quanto uma pessoa está no presente quando estamos com ela, e com ela jamais nos sentiremos entediados."

"A fim de se captar os pensamentos alheios (por telepatia), é preciso, além de uma mente absolutamente tranquila, estarmos libertos de conteúdos pessoais relacionado a nosso passado. Do contrário estaremos constantemente interferindo e distorcendo a qualidade daquilo que recebemos, tendendo a captar apenas o que desejamos. Porém, a maioria das pessoas não está disposta a saber e admitir o quanto seu passado ainda é parte de sua vida."

20 de setembro de 2010

EM QUAL REINO VOCÊ ESTÁ?




Não costumo postar textos de outras fontes aqui, mas este vale a pena. Por mais que se trate de um tema budista, é impossível não reconhecer sua universalidade. Principalmente o fato de que, mesmo entre nós, o reino humano é realmente muito raro.


VIDA HUMANA PRECIOSA
- Padma Samten

O primeiro pensamento é sobre a preciosidade da vida humana. Existem seis reinos nos quais podemos renascer – um deles é o reino humano. Cada reino tem um âmbito de experiência específico. Podemos vivenciar as experiências dos seis reinos com o corpo humano – embora com muito menos intensidade.
O reino dos infernos é vivido por nós através da experiência de que todas as pessoas que nos cercam são ruins – o filho, o marido, o chefe... Para todo lado que olhamos as coisas são difíceis e só há sofrimento. Conectamo-nos com esse reino através da raiva e da aversão.
No reino dos seres famintos há uma experiência de carência incessante. Os fantasmas famintos têm sempre muito pouco diante do que sentem que necessitam. Conectamo-nos a essa experiência através da avareza e da ganância.
No reino dos infernos e no reino dos seres famintos não se pratica o Darma. Os seres dos infernos dizer: “Estou sofrendo, tudo é horrível – como vou praticar?” Os seres famintos dizem: “Preciso disso e daquilo – como posso praticar?”
Existe o reino dos animais, e eles não praticam porque tão logo estejam com suas necessidades satisfeitas, de barriga cheia, dormem. Assim, também não ouvem o Darma. Conectamo-nos ao reino dos animais quando cedemos à preguiça, ao cansaço, à depressão e à gula, o que resulta na obtusidade mental.
Entre os reinos superiores, há o dos deuses. Não é o reino de Deus, mas dos deuses. No reino humano isso corresponderia à vida daqueles que têm muitas facilidades, não têm problemas de saúde ou financeiros, desfrutam de todas as felicidades do mundo material e também são amados e livres. Os deuses te corpos sutis, deslocam-se no espaço e produzem benefícios para seres humanos em dificuldades. O problema é que são benefícios condicionados, não produzem liberação. Os humanos sonham em chegar ao reino dos deuses, e essa é a sua perdição. Vivem almejando chegar lá, trabalhando para isso, ou sonhando com isso. Conectam-se com esse reino através do orgulho.
Outro reino superior é o dos semideuses. Eles têm poder, mas são competitivos e invejosos; passam o tempo todo combatendo. A conexão humana com o reino dos semi-deuses dá-se através da inveja.
Os deuses não praticam porque estão imersos em felicidades e facilidades; então, por que praticar? Os semideuses não têm tempo de praticar porque estão sempre em guerra.
O reino dos seres humanos tem uma vantagem. Nossas felicidades e sofrimentos não são tão duradouros. E, quando cruzamos da felicidade para a infelicidade, buscamos os ensinamentos. Isso é a vida humana comum. E ela é muito rara. Os outros seres são muito mais numerosos. O corpo humano é raro e improvável. Como somos geridos pelo carma, nosso renascimento é determinado por nossa condição cármica. Não conseguimos dirigir esse processo.
Os mestres do passado diziam que o renascimento em um corpo humano é tão improvável quanto uma tartaruga cega que viesse à tona a cada cem anos num mar revolto e conseguisse colocar a cabeça dentro de um aro que flutuasse na água. Nossa condição humana atual é favorável. Os humanos têm a possibilidade de praticar. Temos liberdade de olhar nossos impulsos e perceber aspectos mais sutis. Tempos tempo livre. Isso significa méritos. Essa é a vida humana comum. A vida humana preciosa tem características que transcendem muito a vida humana típica.
Quando vivemos em épocas nas quais os seres de luz não se manifestam, sentimo-nos perdidos, e a vida parece sem sentido. Na época atual os seres de sabedoria vieram e deram ensinamentos que foram guardados e transmitidos. Os ensinamentos chegaram a nós, e estamos numa região onde esses ensinamentos existem. Além disso, temos sensibilidade para ouvi-los.
A vida humana é preciosa quando, somando-se a esses fatores, estamos engajados em transformar nossa vida a partir dos ensinamentos dos seres de sabedoria. Se estivéssemos sob o domínio de seres negativos, ou se tivéssemos um modo de ação incorreta, não conseguiríamos ouvir os ensinamentos. Se não estamos nessas condições, temos as características de vida humana preciosa.
Os mestres do passado disseram que, se a vida humana é numerosa como as estrelas do céu noturno, a vida humana preciosa é tão rara quanto estrelas à luz do sol. É rara e preciosa. Tem o poder de produzir benefícios que ultrapassam o limite de vida e morte.

2 de setembro de 2010

A RELATIVIDADE DAS VIDAS PASSADAS




A psicologia (ciência da alma) se especializou em modificar alguns
padrões de energia mental “preso” das pessoas, que é justamente o que
causa as distorções, e impede o acesso à Verdade. É claro que a
psicoterapia acelera muito esse processo de desconstruir “realidades”.
Na verdade, se olharmos mais fundo veremos que ao redor de toda
experiência revivida há uma estória que criamos para justificar
determinado padrão. É claro que somos muito apegados às nossas
estórias a ponto de não desejarmos vê-las como uma mera criação
mental. Então diremos que “sentimos” quem fomos numa outra vida, mas o
sentir também pode ser mudado para se acomodar a qualquer biografia,
dependendo dos arquétipos que escolhemos experimentar. Quando existe
algo negativo no “passado”, que precisamos mudar, fazemos isso no
*presente*, pois como sabemos, não há passado, nem futuro. Cada vez
que mudarmos o presente, ele fatalmente se tornará um “passado”
transformado, e um novo prenúncio do futuro. O passado e o futuro são
uma criação do agora. Uma pessoa que se *sente* bem-sucedida selecionará todas as suas histórias de sucesso que experimentou na sua vida para fazer parte de sua biografia. Ela simplesmente esquecerá ou deixará de lado tudo o que não contribuiu para sua história pessoal de sucesso, que *ela criou*. Poderíamos dizer que muitos desses fatos que ela esqueceu nem existem mais "no tempo". Mas de fato, as memórias que o indivíduo seleciona para compor a sua história também existem mais, a não ser como padrões energéticos selecionados, que perduram como memória.
Nossa mente geralmente não admite mudar de personagem na vida passada, pois isso não é lógico, mas já vi pessoas não se identificando mais com quem “foram”, à medida que se transformam suficientemente.

Então, se existe um “ideal” será o de abandonar todas as estorinhas
pessoais para enfim sermos apenas o que somos.

Mas enquanto isso, podemos ir melhorando as estorinhas. :-)

24 de junho de 2010

Quanto vale uma visão?



Já foram suficientemente divulgados muitos livros, cursos e materiais sobre Programação Neurolinguistica (PNL), Pensamento Positivo, Lei da Atração, Auto-Hipnose, o Poder do Subconsciente e afins... para que até hoje todos não houvessem atingido maestria na arte de conseguir o que se quer.
Enfim, será que nenhum desses cursos funciona?

A resposta é negativa. Tudo isso funciona, do contrário não seriam técnicas centenárias, que apenas mudam de nome e aparência. O que impede tudo isso de funcionar são as pessoas que não sabem produzir seus desejos e imagens *corretamente*, seja por lhes faltar algo anterior a tal imaginação ou por não terem habilidade suficiente *ainda* para fazer isso. Para criarmos uma imagem é preciso duas coisas que muitos inicialmente já não possuem: a capacidade de discernir o que verdadeiramente se deseja e a persistência para alcançar tal desejo. Pois se qualquer oscilação do desejo delonga o resultado, não é preciso mencionar o que o indivíduo concretiza com uma vontade que muda a cada dia. Além disso, muitas vezes existe a auto-sabotagem de se possuir conteúdos inconscientes que, por algum motivo, não estão de acordo com o que a consciência declara querer.

Essa infelizmente é a realidade da maioria. E podemos lhes dar uma infinidade de cursos de PNL sem obter qualquer resultado. É preciso que não haja conflitos. No auto-conhecimento, portanto, reside a capacidade de destacarmos, do universo, exatamente aquilo que se deseja. Podemos estudar isso muito mais aprofundadamente no “Metabolismo Mental” do fundador da Gestalt-terapia, F. Perls, que retratou minuciosamente esta capacidade de saber o que se quer, ter constância, e assim satisfazer tal vontade. É claro que na psicologia tudo começa nas fases iniciais de desenvolvimento. Mas na maioria dos casos, uma breve interação já revela o que falta para que alguém consiga o que quer através da mente (try me!:)). Conseguir o que falta é o que talvez não seja tão simples quanto os referidos cursos declaram.

Porém, muitos já sabem o que querem (ou o que pensam querer), e desejar posses, cargos, relacionamentos, saúde e coisas afins é o que há de mais trivial, especialmente quando não se tem essas coisas suficientemente. Há um caminho que pode ser bastante longo, para cada um, na satisfação das necessidades de ter essas coisas para si, e tal distância Jung atribuiria ao “destino” (vocabulário calculadamente prosaico). É o tempo que um indivíduo leva, na pirâmide de Maslow, para ir das necessidades de segurança até a auto-realização (que necessariamente implica o outro).

Pois, naturalmente, aquele que já tem coisas suficientes para si, passará a programar sua mente para melhorar aos demais (e sua própria satisfação estará relacionada a isso). Não devemos confundir isso com a co-dependência tão comum a muitos filantropos. A verdadeira filantropia é algo bastante raro, só pode existir num indivíduo verdadeiramente livre de amarras, mas... como compensa! Pois quando alguém deseja algo para além de si, o universo inteiro vem em seu auxílio, e com isso ele adquire mais energia, capacidade e só assim realmente cresce. Pois aqui passa a lidar com forças macrocósmicas. Pode muito menos aquele que deseja apenas para si, pois se ele ainda não está completo, como pode completar alguém?

Portanto, há um modo bastante fácil de medir o tamanho da maestria em programar a própria mente: está na quantidade de pessoas tocadas pelo indivíduo e sua obra (humanitária, ambiental, científica, etc), pois um verdadeiro mestre já conseguiu tudo o que deseja para si. É claro que muitas pessoas já conseguiram muito, e ainda não lhes foi suficiente - mas é justamente em tal "saciedade" que reside todo o Segredo.

Ter uma visão de proporções macrocósmicas não é freqüente, não pode ser algo “forçado” e requer um preparo interior à altura. São visões impossíveis de inventar ou reproduzir, mesmo que se tenha todo o conhecimento material para tanto, por tratarem-se de uma conseqüência do Ser de cada um. E assim, novamente aqui, os cursos de PNL não serão úteis.

Antes de tais visões, entretanto, deve existir a capacidade de modificar nossas próprias visões conscientemente, e enquanto não tivermos certas necessidades básicas (vitais, de segurança, estima, etc.) realizadas, significa que ainda não aprendemos a criar com suficiente maestria, ou que há muitas coisas no caminho nos impedindo de fazê-lo. Para o indivíduo auto-realizado, as imagens são manipuladas à sua vontade e nada foge a seu controle, já que ele tem o mundo em suas mãos.

A alma – ou a psique – se desenvolve a partir desta capacidade de criar. O psicoterapeuta que atende uma pessoa traumatizada, por exemplo, nada mais faz do que ajudá-la a transformar uma imagem negativa, que por algum motivo foi cristalizada em seu inconsciente. E assim a pessoa modifica sua “realidade” para criar uma outra, mais confortável. O ideal, portanto, é que o indivíduo saiba fazê-lo por si.

Finalmente, podemos dizer que qualquer imagem, positiva ou não, é uma ilusão. Mesmos as grandes visões macro-cóscimas foram, a rigor, criadas em algum momento. E assim devem ser contempladas... como um instrumento de realização, que um dia também será dissolvido pela própria lei da impermanência.

7 de outubro de 2009

Um ano de memórias

Vejo que uma retrospectiva de tudo o que ocorreu anteriormente à passagem de O. seja agora algo mais consolidado e imparcial do que as impressões que nos tenham motivado há um ano.
Embora tenha acompanhado seus passos e transformação naquele ano, não pretendo expor todos os fatos e suas motivações, mas as idéias acerca de sua doença e as conclusões às quais ele chegou.
Algo que ele repetiu diversas vezes – e provavelmente há muitas testemunhas disso – foi que o desenvolvimento espiritual e a cura são um só processo. Embora muitos - e ele mesmo antes da doença - tenham a noção de que a cura é algo paralelo ou desconexo da jornada espiritual, no entanto, nossas doenças, físicas ou psíquicas, são justamente uma conseqüência do fato de não havermos nos curado da dualidade que caracteriza a própria condição humana. Essa visão é retratada em pormenores no livro “A Doença como Caminho” - um livro que o guiou por vários meses - , servindo a qualquer pessoa que já tenha tido desde uma dor de cabeça a doenças mais sérias. É claro que as doenças graves surgem quando há níveis mais profundos de dualidade ou dissociação, ou seja, quando se reprime a própria natureza por muitos anos ou quando estamos muito inconscientes da própria condição. Todos nós reprimimos algo em algum nível, e por ser isso algo inconsciente, jamais poderemos dizer “desta água não beberei”.
Foram muitas as consultas com toda a espécie de curadores espirituais, médiuns, xamãs, terapeutas, etc. Durante todo esse processo, ele buscava estender a compreensão que obtinha de si mesmo a uma nova maneira de auxiliar as pessoas, como não poderia deixar de ser, dado seu histórico de “orientador espiritual”. Algo que ele concluiu, tendo tornado isso explícito em reuniões com algumas pessoas, foi o quanto é essencial sabermos traçar o mais profundamente possível uma biografia psicológica pessoal, no sentido de compreender nosso presente em função do passado, o relacionamento com nossos pais, enfim, elaborar nossa história pessoal de auto-conhecimento.
Embora isso pareça óbvio a qualquer psicoterapeuta, pode não ser o que qualquer tipo de busca espiritual enfatize ou favoreça. Menos óbvio ainda é para toda pessoa que julgue ter obtido “controle” ou harmonizado (aparentemente) os próprios conflitos, de tal modo que estes finalmente se estabilizam e não mais perturbam a psique do indivíduo de forma consciente – mas não deixam de atuar. Assim, o desenrolar de seu processo, alguns livros que lhe caíram nas mãos e sua própria psicoterapia fizeram-no concluir, portanto, que a busca espiritual não é algo a ser resolvido num nível espiritual longínquo, a ponto de podermos negligenciar nossa vida pessoal, deixando-a em estado latente. Forçar soluções para atender questões materiais ou valores alheios jamais satisfará os requisitos da alma, que devem ser colocados em primeiro lugar.
O bom vínculo que tivemos foi importante para ilustrar todo seu entendimento, sendo que por fim ele se tornou bem mais otimista em relação às pessoas em geral. Numa situação assim, é de fato essencial estarmos com alguém que compreenda todo o processo fornecendo um feedback positivo de aceitação e compreensão do significado das doenças. O valor de estarmos juntos foi também o de evitarmos apenas lamentar uma morte iminente e sem sentido, pois embora quiséssemos muito permanecer juntos, também vimos razão em tudo o que aconteceu ao contextualizarmos sua doença e todos os seus aspectos em sua vida, enxergando claramente sua redenção e redirecionamento espiritual.
A visão de todo esse processo também o levou a idealizar o Centro de Cura Integral, um espaço onde, conforme sugere o nome, a cura seria buscada em todos os níveis. A última vez em que nos falamos, suas últimas palavras foram justamente a respeito disso: “temos muito o que fazer, a humanidade precisa de ajuda”.
Embora eu creia que teríamos muito o que fazer juntos, hoje compreendo que nada na vida é sem propósito, mesmo quando ainda não temos consciência disso. A despeito de todas as alegrias e tristezas daquele ano, que sempre será lembrado como um dos mais intensos em minha vida, algo em que acredito e que sempre irá permear meu entendimento pode justificar aquele período, bem como a todos os que virão:

"Pela perspectiva do nível universal da essência, as dificuldades ou alegrias da nossa vida não são tão importantes quanto o desenvolvimento da nossa essência. As nossas vidas são para isso." – Almaas

Por fim, simplificando um pouco o que aconteceu entre nós, eu diria que apenas algo superior poderia nos unir de maneira tão exata precisamente num momento em que ambos precisávamos compreender muitas coisas a respeito de nossas vidas. O tempo em que estivemos juntos nos fez aprender coisas bastante semelhantes, e que continham o significado exato que cada um precisava para avançar, de modo que aquele encontro tão inesperado tornou-se um profundo ensinamento para ambos.


Espero que este breve relato seja de alguma utilidade ao entendimento de qualquer doença a nível espiritual, e de qualquer forma reitero a citação do livro acima.

13 de agosto de 2009

A superfície é a matéria da ilusão


A cultura ocidental, principalmente a americana, máxima adoradora e promotora de prêmios por sucesso material, é uma das que mais distorcem os valores sociais em sério detrimento dos espirituais. A lei é a competição, cujo prêmio, financeiro, profissional ou mesmo pessoal, visa meramente *imitar* o que seria o autêntico sucesso espiritual. A prosperidade material pode sempre ser uma conseqüência do bem estar e do fluir natural da vida, mas também pode tornar-se o objetivo máximo, onde os fins justificam os meios, e onde os meios são ignorados às custas de quem deseja esse tipo de sucesso. Assim, vemos muitos abrindo mão daquilo que verdadeiramente gostariam de realizar em prol de um benefício material que pode trazer uma satisfação temporária, mas com duração inversamente proporcional à profundidade da alma. O crescimento pessoal também é prejudicado quando vemos indivíduos buscando recompensas em títulos que contribuem para sua imagem, mas que jamais alimentam necessidades um pouco mais sutis. Os mesmos indivíduos podem construir relacionamentos que, ao invés de suprir genuinamente o crescimento pessoal, sobrevivem décadas à míngua, sem sentido, a fim de garantir uma fachada de segurança, onde já não há nenhuma satisfação.

O sucesso do Ser está em baixa, ou ainda, é seriamente confundido com sucesso material, e uma pessoa “bem-sucedida” pode seguramente ser a que menos extrai um sentido maior de tudo isso, mesmo que esteja desempenhando as funções sociais com importância ou notoriedade. Não podemos, porém, julgar o que motiva o sucesso de alguém como necessariamente negativo, mas as pessoas orientadas pelo Ser são as que menos se preocupam com o que venha a ser o sucesso socialmente, pois estão mais focadas em satisfações mais sutis, de desenvolvimento. É certamente muito difícil definir precisamente o quanto somos motivados pelo espírito ou pela matéria, mas uma boa pergunta a fazer é se o trabalho que realizamos é mais motivador do que o salário mensal (ou o que quer que obtenhamos no fim).

Infelizmente os valores da cultura ocidental estão tão difundidos que o problema não está mais apenas lá, pois o mundo oriental – outrora tão mais exemplar nesse sentido - também já o incorporou. Seria correto dizer que é preciso primeiramente satisfazer as necessidades materiais e que as mais sutis vêm depois, mas tais necessidades são mais subjetivas do que geralmente se admite, do contrário todos os ricos seriam espiritualistas, e não haveria exemplos de espiritualidade nas classes mais baixas. Mas o que ocorre com muita freqüência é o oposto.

Não precisamos, é claro, e não devemos, fugir às obrigações rotineiras em prol de uma espiritualidade que prejudica ou abstenha outros direta ou indiretamente. Mas quando as necessidades do espírito vêm em primeiro lugar, o resto é geralmente acrescentado, sem que em troca das mesmas o indivíduo precise entregar o que tem de melhor.

10 de abril de 2009

O essencial

Conversando com um amigo, lembrei de algo cuja aplicação prática não se pode negar, mas tentarei incluir o mínimo possível de teoria. Existe a noção comum de que devemos lutar pela vida e sobreviver. Mas se a noção espiritualista considera a evolução (espiritual) como sendo o objetivo maior de todos nós, o que significaria a morte diante de encontrar a essência ou realizar o Self, o Eu superior, etc.?
O que o Self deseja é sua própria realização, e para tanto faria qualquer coisa, mesmo que isso custe a morte do próprio eu no (no corpo físico). O objetivo do eu é chegar mais próximo da unidade com o Self, que não perece. O Self pode precisar, naturalmente, produzir uma doença para que esse processo de unificação se acelere, e portanto não deveríamos nos horrorizar com uma eventual morte física. Ao passo que a doença acelera (e muito) a aproximação entre o eu e o Self, a morte a faz cessar. Mas se o Self logrou se apromixar do grande objetivo de ser um com o eu mais do que o faria sem a doença, tanto melhor. Pois não é preciso mencionar o quanto a visão da morte nos aproxima da Vida como ela é, da realidade e portanto da suprema realização.

“A essência transcende a vida e a morte. Depois de algum tempo, ao descobrirmos a nossa essência, mesmo se formos ameaçados com a morte, o que isso importará?” – Almaas.

Assim, devemos esquecer a noção lugar-comum de que viver é o principal objetivo, pois os “deuses” têm um plano muito maior a cada um de nós.

17 de março de 2009

Medo x Coragem


A coragem possui, a meu ver, duas possíveis origens que a justificam, ambas relacionadas à morte como um fenômeno psíquico de transformação.
O primeiro motivo que justifica a coragem seria a negação da morte*. A coragem que se tem ao negar a morte implica uma relação de embate com a mesma, que é no mínimo desagradável.
A segunda origem da coragem é uma relação desdramatizada com a mesma. Ou seja, a morte não é vista como algo em especial, de forma que podemos enfrentá-la com a naturalidade de quem atravessa a rua.
A dramatização da morte, portanto, é diretamente proporcional à falta de coragem (em relação a tudo na vida). O excesso de medo frente às situações nos coloca à margem de experiências reais, pois o medo busca ou o conforto que interiormente não se possui ou manter a zona de conforto em que se vive. E assim vemos a vida passar temerosos (ou confortáveis) protegidos atrás de uma redoma. Já um indivíduo “confortável” em seu próprio interior pode viver situações mais intensas sem grandes dramatizações. Essa é a diferença entre as senhoras emotivas – cujos corações palpitam com as personagens da novela – e os meditadores profissionais – cuja pulsação não se altera nem à surpresa de um tiro.
A coragem também é, portanto, a tentativa de fazer as pazes com a morte, ou com qualquer outro tipo de perda (morte psíquica). O processo de “apaziguar” o medo e aceitar a expansão que sobrevém disso é a própria transformação.
Há muito mais a se considerar sobre esse assunto, mas contemplar tudo renderia no mínimo um livro, o que não é o objetivo.

Este texto foi motivado por meu atual desejo de saltar de um avião (com pára-quedas).

* Por morte aqui entenda-se também qualquer tipo de perigo, físico ou psíquico que coloque o “eu” em situação difícil, posto que diante de uma oportunidade real de transformação.

8 de março de 2009

EXPANDINDO A CONCENTRAÇÃO

A dor física pode ser transcendida. Tive uma dor de estômago lancinante, por algo que ingeri. Concentrando-se na dor profundamente... muito profundamente, descobre-se que se é a própria dor. Toda ela. E assim a dor se vai. Pois quem se torna esse todo, também não é nada. Como pode o nada sentir dor?

Pra compreender isso é preciso vivenciá-lo. Naturalmente, quanto maior a dor, maior a concentração necessária, pois maior é a tendência de fugir, de pensar em outra coisa. Mas assim a dor continua, paralelamente, a existir. Talvez seja isso o que fez a ciência descobrir que uma dor aguda se tranforma em prazer (e os faquires auto-flageladores terem êxtase). Em determinado momento o indivíduo se entrega, e na entrega ele não existe mais como entidade separada, por assim dizer. E não existindo, é apenas bem-aventurança. Esse também é o princípio do amor universal.

Na meditação isso é razoavelmente conhecido, porém pouco praticado. E daí a citação de Maharaj:

"Sendo nada, sou tudo. Sou tudo, e o mundo é meu. Sendo o mundo, não tenho medo do mundo. A água não teme a água, nem o fogo ao fogo."

28 de fevereiro de 2009

AGAPE




A wonderful song
sobre o Amor impessoal:

http://www.youtube.com/watch?v=HtX7Ou_LX-I&feature=PlayList&p=B2DF65E11BC5AB6E&playnext=1&index=77


LOVE FLOWS ON

Love flows on
Like a silent song
Im my heart, in my heart (2x)
Love comes through, linking me with you
In our hearts, in our hearts (2x)

Love joins all creatures great and small
In One Heart, in One Heart (2x)
Love flows free rivers to the sea
In the time, in the time. (2x)

15 de fevereiro de 2009

O AMOR LIVRE



Uma amiga leu a postagem do dia 1 de fevereiro e perguntou-me o que seria o “amor livre”.
Creio que passa por aquela história de que não devemos encontrar a outra metade da laranja, mas outra laranja inteira (considerando que também sejamos inteiros).
Existe o amor pela necessidade e o amor livre. O primeiro *exige* o amor, pois o indivíduo ainda não o tem em si e assim tende a buscá-lo e exigi-lo no outro. Caracteriza-se pelo medo de perder (e por isso é uma busca por segurança), por ciúmes, brigas, fins e recomeços na proporção direta do tamanho do problema em cada um... enfim, não existe paz. Nesse tipo de relacionamento a pessoa está meramente buscando resolver o fulcro existencial que um dia foi preenchido pelo “amor da mãe”, pela “ligação com o Ser”, ou qualquer outro conceito que represente essa falta. O outro também é usado para o indivíduo se auto-afirmar, pois ele precisa daquela sensação ilusória de “ter alguém”, mesmo que pague um preço alto. Quanto mais alto o preço, maior o conflito, pois não existe a liberdade interna de simplesmente desistir. Quando um dos parceiros é mais problemático, ele sempre vai estar (inconscientemente) dificultando a vida do outro, que também acaba se desequilibrando. Uma relação assim “pode” ser melhorada com bastante esforço, desde que *ambos* se tornem pessoas inteiras e independentes, mas isso não ocorre da noite para o dia, e sim ao longo de muitos anos.
As pessoas inteiras amam livremente e o que elas buscam é desenvolvimento mútuo, e nesse tipo de relação ninguém precisa “tolerar” o outro, pois não se está ali amarrado, para honrar um compromisso, buscar sexo, segurança emocional ou companheirismo. O amor livre se nutre da própria liberdade e da sensação de estar aprendendo (algo imaterial), se expandindo e se transformando com o outro, ao mesmo tempo em que se vive em paz. E se um deles desejar partir, o outro não se oporá pois, por também ter essa liberdade, sabe respeitá-la. Portanto, o resquício de ódio que por vezes sobra dos relacionamentos desfeitos, indica que essa liberdade realmente não existia. Mas se não há ódio, também não significa que existia. Da mesma forma... uma pessoa que sabe amar livremente, também é feliz sozinha, mas estar sozinho e feliz não implica saber amar. Como eu havia dito, o amor livre é um fenômeno muito raro.

8 de fevereiro de 2009

MÉTODOS DE TRANSFORMAÇÃO INTERIOR

Para a transformação de conflitos e estados internos há inúmeros “métodos” e alguns deles são: a religião ocidental (i.é. o cristianismo), a religião oriental (i.e. a meditação) e, mais recentemente, a psicoterapia. A experiência com cada um deles levou-me a crer na psicoterapia como o mais eficiente na resolução e integração *efetiva* de conflitos, embora a meditação possa ser usada paralelamente. Tomemos um afeto ou sentimento simples como a inveja, e analisemos como cada um dos métodos funciona:

1) Cristianismo (como principal representante da religião ocidental). O modelo do “sermão” religioso é algo que geralmente se resume em “parem de sentir inveja”, “elimine isso de você”, “a inveja não é de Deus” ou qualquer outro comando que visa à repressão do comportamento ou sentimento. O seguidor em questão obviamente não pode superar um sentimento como esse apenas por não aceitá-lo em si (vida literatura junguiana sobre a Sombra), e isso pode tornar o problema ainda maior ao ter ele que lidar com a culpa. Portanto, não é um modo eficiente para *transformar* questões pessoais.

2) A religião oriental tende a reforçar a consciência como forma de “assentar” todo sentimento indesejável. Assim, praticamente toda a negatividade é atribuída à sua “mente”. Elimine-a, e você será uma criatura divina, ou seja, medite até a inveja desaparecer. Creio que a meditação pode ser útil se utilizada junto à psicoterapia, porém, não foi feita para ocidentais (segundo o próprio Jung) e provavelmente não dará conta de tudo. A idéia subjacente segundo a qual “sua mente está produzindo inveja, portanto, tranqüilize-a” não é um método de resolução propriamente dito, pois não lida com a problemática diretamente. Embora existam outros métodos de meditação, o indivíduo ainda assim precisa sair de um labirinto puxando-se pelos próprios cabelos, o que raramente funciona (a menos que o labirinto desapareça com a mente).

3) A psicoterapia levaria a uma análise das causas da inveja, que se encontram na vida do indivíduo. Este sentimento especificamente relaciona-se à baixa auto-estima e a pessoa nesse caso seria orientada a perguntar-se por que não se sente devidamente valorizada, e o que precisa saber e fazer para senti-lo. Nada que não exija esforço, mas uma vez chegando-se ao centro do problema, ela não precisará se concentrar eternamente na “repressão” ou “esquecimento” da inveja, pois esta desaparecerá espontaneamente. E ter emoções que possam fluir espontaneamente é um indicativo de saúde mental, pois ninguém pode viver constantemente se controlando ou reprimindo até virar santo ou monge.

A maioria dos outros métodos existentes são derivações desses três. Sei que não é uma questão assim tão simples e há uma série de outras considerações, mas não pretendo escrever agora um tratado sobre o assunto.

2 de fevereiro de 2009

COMO SABER SE A PRÓPRIA VIDA ESTÁ EM ORDEM


Creio que saber se nossa vida material (que reflete a espiritual) está em ordem seja algo relativamente simples, e existe um pequeno método. Basta imaginar que teremos apenas mais alguns meses de vida. É preciso certo esforço de imaginação pra isso, do contrário apenas se racionaliza. Então, se nestes meses, resolvermos fazer tudo diferente, é sinal de que as coisas vão muito mal. Se fizermos algumas coisas diferentes, sinal de que vão apenas mal. Pois quem vai bem *mesmo* não precisa mudar nada pra se considerar satisfeito, e a rigor, também não pensaria em parar de trabalhar.

A idéia por trás disso não é apenas a de "viver o hoje", algo muito em moda nos círculos pseudo-espiritualistas. A questão é saber - e não apenas concordar - que nada fora de nós mesmos pode trazer alguma satisfação duradoura. Quem sabe disso, na verdade, não precisa fazer muito além do que geralmente faz, antes de "partir". Mas terminar infeliz também não vale.

1 de fevereiro de 2009

ON LOVE AND FREEDOM

Nada como encontrar pronto o que eu mesma escreveria:

“Quando cresce, a maioria das pessoas ainda se apega a alguém; elas continuam a ser dependentes. Sem alguém em quem se apoiar, que lhes dêem um sentido de conforto e de segurança, elas sentem-se sozinhas. Sentem-se perdidas. Sua dependência em relação ao outro recebe o nome de amor; mas se vocês a observarem cuidadosamente, verão que a dependência é medo, e não amor.” - Krishnamurti

Mas embora muitos concordem com isso, o amor livre é um fenômeno muito raro.

29 de janeiro de 2009

AMOR E GUERRA

(2002)

Lá fora mundos inteiros
Fundados em ódio e dor
E nós aqui forasteiros
Dá-me tua mão, amor

As glórias vãs ansiadas
No crepúsculo aziago
E minhas mãos cariciadas
No calor de teu afago

O soldado em pé armado
De ferro, fogo e aço
E meu corpo embalado
No langor de teu abraço

Os corpos amontoados
Enrijecidos no inverno
E nós dois extasiados
No cálido amor eterno

27 de janeiro de 2009

CARTA A UM VISITANTE DE SONHOS


Não me julgue o pensar, bem amado...
Pois nas palavras, repouso o que sinto
Tudo o que sei não está naqueles livros,
Mas no que restou deles em mim.
De tanto revirar o meu avesso,
Desfiz-me das frases longas,
Restando-me a matéria explícita...
De sentimentos.
Que se sentem quase sem sentido, pois sabemos
Já não estão realmente aqui...
Foram tantas as vezes que lhes dei abrigo
Que já não tenho o que guardar. A não ser...
Um Universo inteiro... de possibilidades.

25 de janeiro de 2009

ÁRVORES


A árvore de galhos finos e flexíveis verga-se com o vento. Em suave balanço seus ramos fluem à paisagem. Cede à brisa ou tempestade; em harmonia com o todo, vive em paz.

A árvore de galhos endurecidos se retorce e enrijece contra a natureza das coisas, em sua verdade isolada, até partir-se em pedaços.
Ainda Eckhart Tolle:
"Uma vez um monge budista me disse: 'Tudo que aprendi nos vinte anos em que sou monge pode ser resumido em uma frase: Tudo o que surge, desaparece. Isso eu sei.' O que ele quis dizer foi o seguinte: aprendi a não oferecer qualquer resistência ao que é; aprendi a permitir que o momento presente aconteça e a aceitar a natureza impermanente de todas as coisas e circunstâncias. Foi assim que encontrei a paz."

24 de janeiro de 2009

O SOFRIMENTO EM PROFUNDIDADE

Em meu trabalho de psicoterapeuta com homens de 18 a 60 anos tenho observado alguns fatos. A maioria deles já é literatura, porém, nada como ver isso na prática.

O sofrimento é o maior catalisador das transformações. A alma que conhece o sofrimento é obrigada a inclinar-se sobre si e assim trazer à tona seus próprios desdobramentos interiores. A superficialidade consiste em não conhecer as próprias entranhas, pois a estas não se tem acesso pela jovialidade despreocupada. Exatamente por isso a “jovialidade” dos jovens geralmente não comporta a profundidade dos mais velhos e sensíveis, a menos que se trate de um jovem bastante sofrido.

Mas o sofrimento em si não traz os desdobramentos interiores da profundidade. É preciso ter a consciência caminhando ao lado para que sofrer não se torne algo infrutífero vida afora. É justamente o sentido consciente que se imprime ao sofrimento que pode fazer cessá-lo. O indivíduo então já não sofreria sem razão. O sofredor consciente ao saber por que sofre na maioria dos casos pode evitá-lo. Havendo consciência, restará apenas o sofrimento inevitável, cuja existência seria um outro tópico.

A ausência de sofrimento pela consciência é, portanto, um caso, porém a ausência de sofrimento sem nunca tê-lo experimentado é o que se denomina frivolidade. A frivolidade gravita em torno da crista das ondas, e o sofrimento dos vales. A profundidade do sofrimento consiste em conhecer os vales e reflete-se, *à proporção de sua superação*, num semblante lúcido, profundo e sereno. Se um sujeito é frívolo ou repete o mesmo erro vida afora é inevitável crermos que “ainda não sofreu o suficiente”.

Sincronicamente, deparei-me com esta frase de Eckart Tolle: "Você tem de ter falhado gravemente de algum modo, ou passado por alguma perda profunda, ou algum sofrimento, para ser conduzido à dimensão espiritual."

22 de janeiro de 2009

OS GIRASSÓIS


Louise observava aqueles seres cabeçudos e amarelos, lembrando as cirandas de outrora. Era uma multidão de cabeças girando ao redor de si. Mas talvez fosse o sol que, rodando, dava-lhes aquela impressão tão viva.

E então viu uma multidão de sóis girando no campo. Eram cabeças extra-terrenas a crescer enormes e fitar-lhe os olhos hipnotizados. Rapidamente eles se aproximavam... seres gigantes com seu amarelo muito intenso, a girar e fundir-se com o sol para então engolir Louise, que desapareceu, naquela agonia quente e tensa de verão seco:

- Louise, vem almoçar!!

O mundo amarelo voltou a ser flores e ela retornou pra casa aliviada.

20 de janeiro de 2009

PIRAÇÕES DA NOVA ERA


Esta semana presenciei um fenômeno que bem poderia ser chamado “pirações da nova era”. Confirmando o que diz a literatura... a mediunidade em sua maior parte refere-se a uma dissociação que alguns indivíduos desenvolvem, julgando-se médiuns ou comunicadores de importantes mensagens. O problema é a crença de que o “discurso” provém de uma fonte alheia a si mesmos, pois desenvolvem dois ou mais fluxos de pensamento dos quais não estão conscientes. Ainda estou pesquisando sobre a diferença entre esse tipo de histeria e os casos de múltipla personalidade, porém creio que este último seja um estágio mais avançado do problema, por se tratar de um quadro psicótico. Jung estudou o caso de múltipla personalidade de sua prima “médium” e as personalidades que canalizava tinham muito a ver com o conteúdo da sua Sombra.
É claro que existem os casos genuínos de mediunidade, como o caso de “João de Deus”, que reside em Goiás. Também presenciei muitos fenômenos deste homem, mas o caso dele é realmente outro. Ele certamente recebe algo superior pra falar e fazer as coisas que vi. Mas segundo ele disse numa entrevista, permanece o tempo todo inconsciente. Algo muito diferente do sujeito que veio me explicar, depois de lançar seus impropérios a seu auditório, que “não era ele”.
Também associo isso ao conhecido (e inconsciente) mecanismo de projeção que ocorre quando vemos e nos afetamos com o erro do outro, por não o suportarmos em nós mesmos. Como o sujeito em questão é claramente rígido e moralista, é possível que precise *dissociar* toda a condenação (que deveria dirigir apenas a si) para então “canalizá-la” aos demais. A diferença é que o médium automatiza o mecanismo de tal forma a ponto de sequer desconfiar que os conteúdos também estão nele. O detalhe é que em alguns momentos ele pareceu acertar em cheio as acusações que fazia, a ponto de deixar a vítima estupefata. Mas na maior parte do tempo foi algo claramente aberrativo.
Posso concluir que talvez a mediunidade genuína refira-se a um fenômeno em que as leituras do médium nada tenham a ver com os conteúdos reprimidos do mesmo.
Na verdade houve muito mais a concluir mas o resto é censurado.

29 de setembro de 2006

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO ®

Como posso, de bom grado
Trocar o encanto da floresta
Por este aborrecido fado
O suor diário na testa?

Vejo, presos a grilhões
Trabalhadores tristonhos
Sempre ansiando milhões
A despeito de seus sonhos

Não fruirá seu obrar árido
Da graça de ser sereno
Da doçura de um amor cálido
E do valor de um viver pleno

Assim, não troco a vida inteira
Pela ilusão de futuro estável
Ou a sombra da videira
Por um túmulo confortável

SONETO DE AMOR®

De tudo na vida nada espero:
O conhecimento de saber passageiro,
Os louros do mundo lisonjeiro,
E pelo ouro temporal não me esmero.

Mas em tudo na vida te espero:
Nas palavras de valor verdadeiro,
Na entrega de meu ser por inteiro,
Na harmonia total que eu quero.

Pois na roda da vida impermanente,
Tudo o mais será inexistente,
Mesmo o afago de teu calor.

E das coisas todas que acredito,
Restam só os segredos do Infinito,
E os mistérios do teu amor.

A VIDA É MOVIMENTO ®

Se assim um dia desejares
Parte, que a vida é movimento
Cada um tem seus pesares
Cada amor o seu momento

E por onde então andares
Esquece a dor em teu alento
Terá tua vida novos ares
E nova cor o teu intento

Terás a excelsa beleza
De aceitar o teu destino
Agir assim é ter pureza
E harmonia com o divino

CAMINHO DO MEIO ®

É muito longo o Caminho
Na trilha das vidas, as canções
Com seus amores, suas ilusões
E meu desejo é meditar sozinho

Nada é triste perder
Pois mais triste é o descaminho
O Ser distante, em desalinho
Faz-me o coração sofrer

Assim, cedo de bom grado
Beijo o amante, entrego o arado
Despeço os amores de antes

Aos fados digo adeus
Que agora não são meus
E sigo a terras distantes