Não costumo postar textos de outras fontes aqui, mas este vale a pena. Por mais que se trate de um tema budista, é impossível não reconhecer sua universalidade. Principalmente o fato de que, mesmo entre nós, o reino humano é realmente muito raro.
VIDA HUMANA PRECIOSA
- Padma Samten
O primeiro pensamento é sobre a preciosidade da vida humana. Existem seis reinos nos quais podemos renascer – um deles é o reino humano. Cada reino tem um âmbito de experiência específico. Podemos vivenciar as experiências dos seis reinos com o corpo humano – embora com muito menos intensidade.
O reino dos infernos é vivido por nós através da experiência de que todas as pessoas que nos cercam são ruins – o filho, o marido, o chefe... Para todo lado que olhamos as coisas são difíceis e só há sofrimento. Conectamo-nos com esse reino através da raiva e da aversão.
No reino dos seres famintos há uma experiência de carência incessante. Os fantasmas famintos têm sempre muito pouco diante do que sentem que necessitam. Conectamo-nos a essa experiência através da avareza e da ganância.
No reino dos infernos e no reino dos seres famintos não se pratica o Darma. Os seres dos infernos dizer: “Estou sofrendo, tudo é horrível – como vou praticar?” Os seres famintos dizem: “Preciso disso e daquilo – como posso praticar?”
Existe o reino dos animais, e eles não praticam porque tão logo estejam com suas necessidades satisfeitas, de barriga cheia, dormem. Assim, também não ouvem o Darma. Conectamo-nos ao reino dos animais quando cedemos à preguiça, ao cansaço, à depressão e à gula, o que resulta na obtusidade mental.
Entre os reinos superiores, há o dos deuses. Não é o reino de Deus, mas dos deuses. No reino humano isso corresponderia à vida daqueles que têm muitas facilidades, não têm problemas de saúde ou financeiros, desfrutam de todas as felicidades do mundo material e também são amados e livres. Os deuses te corpos sutis, deslocam-se no espaço e produzem benefícios para seres humanos em dificuldades. O problema é que são benefícios condicionados, não produzem liberação. Os humanos sonham em chegar ao reino dos deuses, e essa é a sua perdição. Vivem almejando chegar lá, trabalhando para isso, ou sonhando com isso. Conectam-se com esse reino através do orgulho.
Outro reino superior é o dos semideuses. Eles têm poder, mas são competitivos e invejosos; passam o tempo todo combatendo. A conexão humana com o reino dos semi-deuses dá-se através da inveja.
Os deuses não praticam porque estão imersos em felicidades e facilidades; então, por que praticar? Os semideuses não têm tempo de praticar porque estão sempre em guerra.
O reino dos seres humanos tem uma vantagem. Nossas felicidades e sofrimentos não são tão duradouros. E, quando cruzamos da felicidade para a infelicidade, buscamos os ensinamentos. Isso é a vida humana comum. E ela é muito rara. Os outros seres são muito mais numerosos. O corpo humano é raro e improvável. Como somos geridos pelo carma, nosso renascimento é determinado por nossa condição cármica. Não conseguimos dirigir esse processo.
Os mestres do passado diziam que o renascimento em um corpo humano é tão improvável quanto uma tartaruga cega que viesse à tona a cada cem anos num mar revolto e conseguisse colocar a cabeça dentro de um aro que flutuasse na água. Nossa condição humana atual é favorável. Os humanos têm a possibilidade de praticar. Temos liberdade de olhar nossos impulsos e perceber aspectos mais sutis. Tempos tempo livre. Isso significa méritos. Essa é a vida humana comum. A vida humana preciosa tem características que transcendem muito a vida humana típica.
Quando vivemos em épocas nas quais os seres de luz não se manifestam, sentimo-nos perdidos, e a vida parece sem sentido. Na época atual os seres de sabedoria vieram e deram ensinamentos que foram guardados e transmitidos. Os ensinamentos chegaram a nós, e estamos numa região onde esses ensinamentos existem. Além disso, temos sensibilidade para ouvi-los.
A vida humana é preciosa quando, somando-se a esses fatores, estamos engajados em transformar nossa vida a partir dos ensinamentos dos seres de sabedoria. Se estivéssemos sob o domínio de seres negativos, ou se tivéssemos um modo de ação incorreta, não conseguiríamos ouvir os ensinamentos. Se não estamos nessas condições, temos as características de vida humana preciosa.
Os mestres do passado disseram que, se a vida humana é numerosa como as estrelas do céu noturno, a vida humana preciosa é tão rara quanto estrelas à luz do sol. É rara e preciosa. Tem o poder de produzir benefícios que ultrapassam o limite de vida e morte.
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