24 de janeiro de 2009

O SOFRIMENTO EM PROFUNDIDADE

Em meu trabalho de psicoterapeuta com homens de 18 a 60 anos tenho observado alguns fatos. A maioria deles já é literatura, porém, nada como ver isso na prática.

O sofrimento é o maior catalisador das transformações. A alma que conhece o sofrimento é obrigada a inclinar-se sobre si e assim trazer à tona seus próprios desdobramentos interiores. A superficialidade consiste em não conhecer as próprias entranhas, pois a estas não se tem acesso pela jovialidade despreocupada. Exatamente por isso a “jovialidade” dos jovens geralmente não comporta a profundidade dos mais velhos e sensíveis, a menos que se trate de um jovem bastante sofrido.

Mas o sofrimento em si não traz os desdobramentos interiores da profundidade. É preciso ter a consciência caminhando ao lado para que sofrer não se torne algo infrutífero vida afora. É justamente o sentido consciente que se imprime ao sofrimento que pode fazer cessá-lo. O indivíduo então já não sofreria sem razão. O sofredor consciente ao saber por que sofre na maioria dos casos pode evitá-lo. Havendo consciência, restará apenas o sofrimento inevitável, cuja existência seria um outro tópico.

A ausência de sofrimento pela consciência é, portanto, um caso, porém a ausência de sofrimento sem nunca tê-lo experimentado é o que se denomina frivolidade. A frivolidade gravita em torno da crista das ondas, e o sofrimento dos vales. A profundidade do sofrimento consiste em conhecer os vales e reflete-se, *à proporção de sua superação*, num semblante lúcido, profundo e sereno. Se um sujeito é frívolo ou repete o mesmo erro vida afora é inevitável crermos que “ainda não sofreu o suficiente”.

Sincronicamente, deparei-me com esta frase de Eckart Tolle: "Você tem de ter falhado gravemente de algum modo, ou passado por alguma perda profunda, ou algum sofrimento, para ser conduzido à dimensão espiritual."

2 comentários:

Robson Pinheiro disse...

O sofrimento... sempre ele. Vc está certíssima. Sempre escutei que alguém só procura ajuda quando o sofrimento alcançou um nível tal que as defesas já não servem e vc capitula... apesar disso, como disse bandura, há o sofrimento por observação. Coisa doida, não? Uma pessoa pode aprender a sofrer só por observar o medo das outras pessoas. É uma fobia social por aprendizagem vicariante... de qualquer forma, o sofrimento será o motor propulsor da mudança, seja ele qual for.

Robson

Juliana disse...

Ah, behavioristas heheh...
Legal Robson. E a aprendizagem vicariante do sofrimento na perspectiva psicodinâmica pressupõe o "gancho" de algum conteúdo inconsciente. Como pra vc não existe tal coisa como o "inconsciente", não sei como é que fica.