20 de outubro de 2012

O Ciúme




O ciúme é uma receita infalível para azedar qualquer relacionamento. Que se trata de insegurança todos sabem. Quando apenas um dos parceiros tem ciúmes, ele pode estar sentindo que o outro “é areia demais para o seu caminhão”, mesmo que não seja, pois trata-se então da famosa baixa auto-estima. A auto-estima é uma construção simbólica que depende não apenas do quanto a pessoa se considera amada e bem sucedida em todos as áreas, como seu grau de exigência em relação ao que considera amor e sucesso. Nosso nível maior ou menor de auto-estima foi definido principalmente na infância, estando geralmente relacionado com o grau de exigência dos pais e do quanto recebemos de amor (ou do quanto fomos reforçados positivamente, como queiram). Muitas vezes o indivíduo, quando cresce e à medida que reconstrói sua identidade, precisa reajustar sua auto-estima para que seus relacionamentos interpessoais fiquem mais harmônicos – casos de filhos superprotegidos que precisam se tornar mais “humildes”, ou de crianças inferiorizadas que precisam se valorizar.

O fato é que o ciumento, não estando bem relacionado com sua auto-estima, pode muitas vezes, e de forma consciente ou não, querer minar o parceiro a fim de que este se torne mais a seu gosto, talvez mais dependente, mais modesto ou menos atraente para o sexo oposto. Isso pode vir sob a alegação de que o parceiro é arrogante ou convencido. É a maneira de muitos ciumentos se tornarem mais seguros. A partir daí surgem as intermináveis agressões causadas pela insegurança.

Embora a pessoa mais insegura da relação possa ser constantemente assegurada e reforçada por um parceiro compreensivo, na maioria das vezes, dependendo do nível de elaboração do problema, isso não será suficiente. Por mais que o parceiro elogie e se submeta ao controle do inseguro, trata-se de algo interno, que só pode ser modificado pelo auto-conhecimento ou “decisão” do próprio indivíduo. É o caso comum, por exemplo, de mulheres que não acreditam ser amadas, ou de homens que precisam controlar ou vigiar os passos das parceiras. O ciúme está estreitamente relacionado ao medo da traição, pois o inseguro sempre sente, inconscientemente, que alguém “mais capaz” do que ele/ela tomará seu parceiro de si. Não raro, de tanto ser pressionado e importunado com as queixas do parceiro, o outro acaba por de fato traí-lo, o que vem a reforçar no ciumento sua crença de que estava sendo enganado, preterido ou de que é inferior, aumentando assim o controle, e tornando o relacionamento, se ainda não era, algo insuportável.

Se os ciúmes de um dos parceiros traz impactos negativos para o relacionamento, não podemos negar que a tragédia aumenta quando existem dois ciumentos. O fato de ambos serem inseguros em geral não ameniza o problema, ao contrário do que se poderia pensar.

Uma outra característica dos ciumentos mais contumazes é a obsessão por descobrir os “podres” do parceiro, e este indivíduo não terá paz enquanto não encontrar alguma coisa. Se encontrar, porém, tornará o relacionamento um inferno. Na falta de grandes deslizes, os pequenos servirão para satisfazer a “profecia auto-realizadora” do ciumento. Cedo ou tarde ele acaba por atrair determinados fatos a fim de que se cumpra a ideia pré-concebida de que está sendo enganado de alguma forma.

E materializar essa ideia não fica barato. O ciumento pode levar a cabo sessões de questionamento e tortura – psicológica e até mesmo física – para extrair a suposta “verdade”, sem a qual ele não sossegará. Aparentemente os mínimos detalhes os deixam satisfeitos por pouco tempo. Mas logo haverá a exigência de mais “verdades” a ponto de a vítima precisar rebuscar na memória algo muito errado que porventura tenha feito. Pois o torturador sempre age como se soubesse de algo, como se tivesse sido testemunha ocular de um fato, mesmo que não tenha ideia do que esteja falando. Ele também pode selecionar detalhes ou considerar “muito estranho” determinados fatos e comportamentos do parceiro para exercer a desconfiança e ter dados “concretos” em que basear a acusação. Seus argumentos não são destituídos de lógica, porém isso serve para que ele mesmo não se considere o problema, e a tendenciosidade de tal lógica nunca é questionada.

Perguntamo-nos então, qual seria a solução para este universo de problemas onde o ciúme impera – além é claro de um longo processo de auto-conhecimento e redenção pelos quais obviamente se deva percorrer. O ciúme é uma atitude egoísta onde o indivíduo não abre mão de possuir como objeto o ser “amado”, do contrário não se importaria tanto com o que ele/ela faz. É possível que na infância ele tenha se frustrado imensamente quando percebeu que um de seus pais não lhe podia dar atenção exclusiva, pois precisava partilhar essa atenção com seus irmãos ou com o mundo. Ele pode ter se sentido enganado ou traído ou ainda é possível que um dos pais o tenham super-protegido ou acalentado a ponto de o ciumento crer que o mundo também teria essa atitude especialista, de alguma forma. Trata-se de uma exigência inconsciente, pois a maioria dos ciumentos se consideram generosos. O grande avanço para esses indivíduos seria compreenderem que podem amar os parceiros apesarde estes serem livres e terem o direito de compartilhar sua atenção com o mundo. E isso não irá destruir ou diminuir o amor que sentem pelo parceiro, muito pelo contrário. É muito mais fácil amar quem não exige este amor.

Nenhum comentário: