7 de outubro de 2009

Um ano de memórias

Vejo que uma retrospectiva de tudo o que ocorreu anteriormente à passagem de O. seja agora algo mais consolidado e imparcial do que as impressões que nos tenham motivado há um ano.
Embora tenha acompanhado seus passos e transformação naquele ano, não pretendo expor todos os fatos e suas motivações, mas as idéias acerca de sua doença e as conclusões às quais ele chegou.
Algo que ele repetiu diversas vezes – e provavelmente há muitas testemunhas disso – foi que o desenvolvimento espiritual e a cura são um só processo. Embora muitos - e ele mesmo antes da doença - tenham a noção de que a cura é algo paralelo ou desconexo da jornada espiritual, no entanto, nossas doenças, físicas ou psíquicas, são justamente uma conseqüência do fato de não havermos nos curado da dualidade que caracteriza a própria condição humana. Essa visão é retratada em pormenores no livro “A Doença como Caminho” - um livro que o guiou por vários meses - , servindo a qualquer pessoa que já tenha tido desde uma dor de cabeça a doenças mais sérias. É claro que as doenças graves surgem quando há níveis mais profundos de dualidade ou dissociação, ou seja, quando se reprime a própria natureza por muitos anos ou quando estamos muito inconscientes da própria condição. Todos nós reprimimos algo em algum nível, e por ser isso algo inconsciente, jamais poderemos dizer “desta água não beberei”.
Foram muitas as consultas com toda a espécie de curadores espirituais, médiuns, xamãs, terapeutas, etc. Durante todo esse processo, ele buscava estender a compreensão que obtinha de si mesmo a uma nova maneira de auxiliar as pessoas, como não poderia deixar de ser, dado seu histórico de “orientador espiritual”. Algo que ele concluiu, tendo tornado isso explícito em reuniões com algumas pessoas, foi o quanto é essencial sabermos traçar o mais profundamente possível uma biografia psicológica pessoal, no sentido de compreender nosso presente em função do passado, o relacionamento com nossos pais, enfim, elaborar nossa história pessoal de auto-conhecimento.
Embora isso pareça óbvio a qualquer psicoterapeuta, pode não ser o que qualquer tipo de busca espiritual enfatize ou favoreça. Menos óbvio ainda é para toda pessoa que julgue ter obtido “controle” ou harmonizado (aparentemente) os próprios conflitos, de tal modo que estes finalmente se estabilizam e não mais perturbam a psique do indivíduo de forma consciente – mas não deixam de atuar. Assim, o desenrolar de seu processo, alguns livros que lhe caíram nas mãos e sua própria psicoterapia fizeram-no concluir, portanto, que a busca espiritual não é algo a ser resolvido num nível espiritual longínquo, a ponto de podermos negligenciar nossa vida pessoal, deixando-a em estado latente. Forçar soluções para atender questões materiais ou valores alheios jamais satisfará os requisitos da alma, que devem ser colocados em primeiro lugar.
O bom vínculo que tivemos foi importante para ilustrar todo seu entendimento, sendo que por fim ele se tornou bem mais otimista em relação às pessoas em geral. Numa situação assim, é de fato essencial estarmos com alguém que compreenda todo o processo fornecendo um feedback positivo de aceitação e compreensão do significado das doenças. O valor de estarmos juntos foi também o de evitarmos apenas lamentar uma morte iminente e sem sentido, pois embora quiséssemos muito permanecer juntos, também vimos razão em tudo o que aconteceu ao contextualizarmos sua doença e todos os seus aspectos em sua vida, enxergando claramente sua redenção e redirecionamento espiritual.
A visão de todo esse processo também o levou a idealizar o Centro de Cura Integral, um espaço onde, conforme sugere o nome, a cura seria buscada em todos os níveis. A última vez em que nos falamos, suas últimas palavras foram justamente a respeito disso: “temos muito o que fazer, a humanidade precisa de ajuda”.
Embora eu creia que teríamos muito o que fazer juntos, hoje compreendo que nada na vida é sem propósito, mesmo quando ainda não temos consciência disso. A despeito de todas as alegrias e tristezas daquele ano, que sempre será lembrado como um dos mais intensos em minha vida, algo em que acredito e que sempre irá permear meu entendimento pode justificar aquele período, bem como a todos os que virão:

"Pela perspectiva do nível universal da essência, as dificuldades ou alegrias da nossa vida não são tão importantes quanto o desenvolvimento da nossa essência. As nossas vidas são para isso." – Almaas

Por fim, simplificando um pouco o que aconteceu entre nós, eu diria que apenas algo superior poderia nos unir de maneira tão exata precisamente num momento em que ambos precisávamos compreender muitas coisas a respeito de nossas vidas. O tempo em que estivemos juntos nos fez aprender coisas bastante semelhantes, e que continham o significado exato que cada um precisava para avançar, de modo que aquele encontro tão inesperado tornou-se um profundo ensinamento para ambos.


Espero que este breve relato seja de alguma utilidade ao entendimento de qualquer doença a nível espiritual, e de qualquer forma reitero a citação do livro acima.

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